quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Valor Econômico: "Oferta da Petrobras desafia grande investidor"

Está tudo ao contrário. Tradicionalmente, as decisões de aplicação em ofertas de ações são mais simples ao investidor institucional, com fácil acesso a ferramentas de análise e aos bancos de investimento. Já a pessoa física, muitas vezes, sente-se melindrada. Mas no caso da megaoferta de ações da Petrobras está tudo invertido.
O pequeno aplicador tomou sua decisão, baseado em convicções pessoais. Já o grande investidor está confuso, sem as informações que normalmente costuma ter nessas operações.
O fato de a oferta ser muito grande e estar dividida entre seis bancos coordenadores está dificultando a formação de consenso sobre demanda. Até agora, não há uma consolidação do livro de coleta de intenções de investimento.
O reflexo dessa dificuldade de formação de opinião está na instabilidade das ações. Depois da queda acumulada na semana passada, as preferenciais e ordinárias tiveram alta significativa ontem na bolsa. Por conta da valorização das ações, a operação pode ser calculada agora entre R$ 110 bilhões e R$ 137,4 bilhões, considerando os lotes adicional e suplementar.
O investidor institucional, que tem até quinta-feira para decidir sobre o investimento, está sem saber a quantas anda a demanda para a maior oferta do mundo. Muitos estrangeiros, que acabaram não exercendo seu direito na oferta prioritária, devem pesar na composição da demanda da parcela efetivamente pública (para novos acionistas) da operação.
Para a prioritária, aqueles que têm recibos de ações (ADS) negociados no exterior tinham que converter os títulos para os papéis no Brasil e, com isso, arcar com os impostos dessa movimentação. Por isso, parte desse grupo preferiu abrir mão desse direito e entrar apenas na oferta aberta a todos (20% do total). Assim, além de contribuir para a formação do preço, o estrangeiro também pode levar para casa diretamente o ADS.
Uma opinião ouvida no mercado é que o aumento do lote adicional de 10% para 20% da oferta, anunciado na semana passada, foi uma sinalização de que existe demanda pela operação. Assim, investidores que estavam com posição abaixo da média de mercado no papel, mas que esperavam ajustar essa diferença na oferta, podem estar se antecipando e decidindo comprar parte das ações agora, com receio de não conseguir todos os papéis no momento da alocação decidida discricionariamente pelos bancos coordenadores.
O estrangeiro está particularmente preocupado em manter sua exposição à Petrobras, após a operação, por conta dos principais índices que acompanha, com destaque para o MSCI Brazil. A expectativa é que a oferta amplie significativamente a participação da estatal nessa carteira teórica, fazendo com que esse investidor fique muito descolado de seu parâmetro de rentabilidade. Isso pode ser um fator de pressão de compra sobre os papéis na bolsa e na oferta.
Essa ponderação fez com que as apostas para o preço das preferenciais na oferta ficassem entre R$ 26 e R$ 25 ontem. Na sexta, o intervalo considerado tinha como piso o valor de R$ 22. Ontem, as ações PN subiram 2,5%, a R$ 27,10. Ainda sobre o lote adicional de 20%, entende-se que ele pode ser o instrumento por meio do qual o governo pretende garantir que colocará R$ 74,8 bilhões na operação. Mas, para adquirir ações fora da oferta prioritária, a União ou entidades ligadas a ela terão que entrar com dinheiro, e não títulos públicos.
E se a demanda superar R$ 146,2 bilhões, equivalente a um terço a mais que a oferta inicial (sem lote extra), o governo não poderá subscrever ações além da oferta prioritária, por ser “pessoa vinculada”. A norma da CVM exige a exclusão dessas pessoas da alocação quando há excesso de demanda.
Na noite de ontem, a Petrobras divulgou fato relevante esclarecendo que os potenciais investidores não devem considerar nenhuma informação ou manifestação sobre a oferta a não ser os comunicados oficiais da empresa e o prospecto da operação.
Autor: Graziella Valenti e Fernando Torres | De São Paulo
Fonte: Valor Econômico